Havia um barco.
E nele, um comandante que parecia ser um
— até deixar de ser.
Presente, constante, bem-humorado.
Um pouco intimidado,
um pouco com medo,
desacreditado,
incostante às vezes,
sedutor, sensual,
e quase sempre instável.
Navegava bem.
Ou parecia.
Até que, depois de quase um mês
de aventuras únicas
e acontecimentos memoráveis,
veio o declínio.
Tudo em cima de uma porta.
Literalmente.
Um Titanic moderno
onde o caçador provou da presa
e depois a deixou boiando,
sem colete,
sem rumo,
sem promessa.
Houve sinais.
Reciprocidade aparente.
Mas era farsa?
Ou verdade mal explicada?
A que nível,
a que ponto?
Talvez não fosse mentira.
Talvez fosse só aquela frase:
“um quilômetro de cada vez”
que tinha algo a dizer
e ninguém quis traduzir.
Joguinhos não são inofensivos.
A fala direta poupa naufrágios.
A honestidade corta —
mas salva.
Não houve corte.
Só ausência de verdade.
E quando, ainda assim,
se insiste em manter o vínculo,
em tentar,
em acreditar,
vem outra onda.
E ela não pede licença.
Atropela tudo
com a frase mais louca
e mais devastadora:
“Infelizmente, meu coração já está ocupado.”
O chão desaparece.
A lucidez chega tarde.
Mesmo fechando os olhos,
o sono foge.
A dor fica.
E o pensamento cruel aparece,
ritmado pelo bater das ondas:
Como pude ser idiota?
Vem a onda do desconforto.
Do incômodo.
Do desespero.
Da humilhação.
Da raiva de si.
Por não ter ouvido o instinto.
Por ter ignorado a sanidade.
Por ter flutuado
quando era hora de nadar.
O que me resta hoje?
Hoje estou completamente desorientada.
Diga-se: despirocada.
Quero colo.
Queria chocolate.
Queria chorar.
Queria sorrir.
Queria ser mimada.
Estou na bad.
Um vazio desértico dentro de mim.
Um oco assombroso no interior.
Um espanto ao perceber
o quão grandes podemos ser
— e ainda assim,
o quão bobas.
Qual é o nível do lugar
em que eu me coloco?
Às vezes segunda opção.
Às vezes reopção.
Às vezes nem opção.
Ou talvez
nunca tenha sido.
Não.
Grita a voz de dentro:
Você é primeira opção. Sempre.
Não se espera pela sobra do amor.
Não se aceita migalha emocional.
Amor não completa —
amor transborda.
Ele ilumina.
Ele aquece.
Ele solta.
Ele brilha.
Ele explode.
Amor é a coisa mais linda
que pode acontecer.
Explicado em palavras
ou no silêncio de um abraço
numa tarde chuvosa.
E se não é assim,
não é amor.
É só mais um naufrágio
num mar
que nunca foi casa.
(Hedwiges Thalíssa)
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