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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

[POESIA] NAUFRÁGIO DA SENSATEZ (ou como sobrevivi numa porta que não era minha)

Havia um barco.

E nele, um comandante que parecia ser um

— até deixar de ser.


Presente, constante, bem-humorado.

Um pouco intimidado,

um pouco com medo,

desacreditado,

incostante às vezes,

sedutor, sensual,

e quase sempre instável.


Navegava bem.

Ou parecia.


Até que, depois de quase um mês

de aventuras únicas

e acontecimentos memoráveis,

veio o declínio.


Tudo em cima de uma porta.

Literalmente.


Um Titanic moderno

onde o caçador provou da presa

e depois a deixou boiando,

sem colete,

sem rumo,

sem promessa.


Houve sinais.

Reciprocidade aparente.

Mas era farsa?

Ou verdade mal explicada?

A que nível,

a que ponto?


Talvez não fosse mentira.

Talvez fosse só aquela frase:

“um quilômetro de cada vez”

que tinha algo a dizer

e ninguém quis traduzir.


Joguinhos não são inofensivos.

A fala direta poupa naufrágios.

A honestidade corta —

mas salva.


Não houve corte.

Só ausência de verdade.


E quando, ainda assim,

se insiste em manter o vínculo,

em tentar,

em acreditar,

vem outra onda.


E ela não pede licença.


Atropela tudo

com a frase mais louca

e mais devastadora:


“Infelizmente, meu coração já está ocupado.”


O chão desaparece.

A lucidez chega tarde.


Mesmo fechando os olhos,

o sono foge.

A dor fica.

E o pensamento cruel aparece,

ritmado pelo bater das ondas:


Como pude ser idiota?


Vem a onda do desconforto.

Do incômodo.

Do desespero.

Da humilhação.

Da raiva de si.


Por não ter ouvido o instinto.

Por ter ignorado a sanidade.

Por ter flutuado

quando era hora de nadar.


O que me resta hoje?


Hoje estou completamente desorientada.

Diga-se: despirocada.


Quero colo.

Queria chocolate.

Queria chorar.

Queria sorrir.

Queria ser mimada.


Estou na bad.


Um vazio desértico dentro de mim.

Um oco assombroso no interior.

Um espanto ao perceber

o quão grandes podemos ser

— e ainda assim,

o quão bobas.


Qual é o nível do lugar

em que eu me coloco?


Às vezes segunda opção.

Às vezes reopção.

Às vezes nem opção.

Ou talvez

nunca tenha sido.


Não.


Grita a voz de dentro:


Você é primeira opção. Sempre.


Não se espera pela sobra do amor.

Não se aceita migalha emocional.

Amor não completa —

amor transborda.


Ele ilumina.

Ele aquece.

Ele solta.

Ele brilha.

Ele explode.


Amor é a coisa mais linda

que pode acontecer.


Explicado em palavras

ou no silêncio de um abraço

numa tarde chuvosa.


E se não é assim,

não é amor.


É só mais um naufrágio

num mar

que nunca foi casa.



(Hedwiges Thalíssa)

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